Olá meninos e meninas,
Ainda busco inspiração para escrever, mas tá difícil viu... as palavras somem... mas é Páscoa, e páscoa traz uma mensagem tão bonita pra gente, nos faz pensar mais forte na vida e toda a sua plenitude, nos lembra Jesus Cristo e todos os seus ensinamentos.
Como não escrever nada aqui no nosso blog sobre esse tema tão rico de reflexão?
E ainda que eu não tenha muito o que escrever, quero deixar um texto de Rubem Alves, que lembrei agora, onde fala da pipoca e toda sua simbologia. Eu sempre lembro deste texto em momentos de decisão, em momentos em que a vida pede da gente uma escolha, quando pulsa mais forte no nosso peito o compromisso que temos com nós mesmos.
Espero que sejamos cada vez mais pipocas e menos piruás... Uma semana cheia de luz pra todos nós.
Leiam o texto e reflitam... Beijo grande, abraço apertado!
"...É que a transformação do milho duro em pipoca macia é símbolo da grande
transformação porque devem passar os homens para que eles venham a ser o que
devem ser. O milho da pipoca não é o que deve ser. Ele deve ser aquilo que
acontece depois do estouro. O milho da pipoca somos nós: duros, quebra-dentes,
impróprios para comer, pelo poder do fogo podemos, repentinamente, nos
transformar em outra coisa — voltar a ser crianças! Mas a transformação só
acontece pelo poder do fogo.
Milho de pipoca que não passa pelo fogo
continua a ser milho de pipoca, para sempre.
Assim acontece com a gente.
As grandes transformações acontecem quando passamos pelo fogo. Quem não passa
pelo fogo fica do mesmo jeito, a vida inteira. São pessoas de uma mesmice e
dureza assombrosa. Só que elas não percebem. Acham que o seu jeito de ser é o
melhor jeito de ser.
Mas, de repente, vem o fogo. O fogo é quando a vida
nos lança numa situação que nunca imaginamos. Dor. Pode ser fogo de fora: perder
um amor, perder um filho, ficar doente, perder um emprego, ficar pobre. Pode ser
fogo de dentro. Pânico, medo, ansiedade, depressão — sofrimentos cujas causas
ignoramos.Há sempre o recurso aos remédios. Apagar o fogo. Sem fogo o sofrimento
diminui. E com isso a possibilidade da grande transformação.
Imagino que
a pobre pipoca, fechada dentro da panela, lá dentro ficando cada vez mais
quente, pense que sua hora chegou: vai morrer. De dentro de sua casca dura,
fechada em si mesma, ela não pode imaginar destino diferente. Não pode imaginar
a transformação que está sendo preparada. A pipoca não imagina aquilo de que ela
é capaz. Aí, sem aviso prévio, pelo poder do fogo, a grande transformação
acontece: PUF!! — e ela aparece como outra coisa, completamente diferente, que
ela mesma nunca havia sonhado. É a lagarta rastejante e feia que surge do casulo
como borboleta voante.
Na simbologia cristã o milagre do milho de pipoca
está representado pela morte e ressurreição de Cristo: a ressurreição é o
estouro do milho de pipoca. É preciso deixar de ser de um jeito para ser de
outro.
"Morre e transforma-te!" — dizia Goethe.
Em Minas, todo
mundo sabe o que é piruá. Falando sobre os piruás com os paulistas, descobri que
eles ignoram o que seja. Alguns, inclusive, acharam que era gozação minha, que
piruá é palavra inexistente. Cheguei a ser forçado a me valer do Aurélio para
confirmar o meu conhecimento da língua. Piruá é o milho de pipoca que se recusa
a estourar.
Meu amigo William, extraordinário professor pesquisador da
Unicamp, especializou-se em milhos, e desvendou cientificamente o assombro do
estouro da pipoca. Com certeza ele tem uma explicação científica para os piruás.
Mas, no mundo da poesia, as explicações científicas não valem.
Por
exemplo: em Minas "piruá" é o nome que se dá às mulheres que não conseguiram
casar. Minha prima, passada dos quarenta, lamentava: "Fiquei piruá!" Mas acho
que o poder metafórico dos piruás é maior.
Piruás são aquelas pessoas
que, por mais que o fogo esquente, se recusam a mudar. Elas acham que não pode
existir coisa mais maravilhosa do que o jeito delas serem.
Ignoram o dito
de Jesus: "Quem preservar a sua vida perdê-la-á".A sua presunção e o seu medo
são a dura casca do milho que não estoura. O destino delas é triste. Vão ficar
duras a vida inteira. Não vão se transformar na flor branca macia. Não vão dar
alegria para ninguém. Terminado o estouro alegre da pipoca, no fundo a panela
ficam os piruás que não servem para nada. Seu destino é o lixo.
Quanto às
pipocas que estouraram, são adultos que voltaram a ser crianças e que sabem que
a vida é uma grande brincadeira...
"Nunca imaginei que chegaria um dia em
que a pipoca iria me fazer sonhar. Pois foi precisamente isso que
aconteceu".
O texto acima foi extraído do jornal "Correio Popular",
de Campinas (SP), onde o escritor mantém coluna bissemanal.